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13 de fev de 2015

Amor de carnaval - Eliane F.C.Lima



Ele se apresentou a mim e disse que seu nome era Pirata da Cara de Pau. Imediatamente, pensei em corrigir para “Perna de pau”, mas ele já estava sentando em minha mesa, comendo de meu tira-gosto e pedindo ao garçom um chope, tendo apresentado a ele meu papel de anotar as bebidas. Realmente, embora tivesse um olho tampado e uma roupa condizente com o título, tinha duas pernas muito bem-feitas, por sinal, pensei, abafando um sorriso entusiasmado. Aliás, a tal cara, embora fosse aos poucos sendo confirmada, era morena e muito bonita. E eu me perguntava por que aquele pirata de carnaval tinha resolvido sentar à minha mesa, já coroa eu, com tantas meninotas, em outras mesas, que olhavam, insistentemente para ele e, surpresas, para mim. Um golpe, era isso? “Essa coroa, solitária, com ar de boba, deve ter dinheiro”, a frase sendo formulada na cabeça dele, mal me viu. Empurrei para fora do pensamento minha animação com a figura atraente do rapaz e acordei minha avaliação crítica sobre os seres humanos, crítica que trazia, sempre puxada pela coleira, minha matilha de cães ferozes e famintos. Com um ar blasè e irônico, fui dando corda ao moço, sua conversa alegre e viva, que mandou vir mais tira-gostos – só dos mais caros – e chope. Tudo no meu papel. Já meio preocupada e para mostrar que eu não era tola, sugeri a ele que abrisse uma comanda só para ele. Jovialmente, ele sorriu, dizendo que não era preciso. Tinha de ir embora mesmo, pois o bloco de carnaval já ia sair. Apertou minha mão com força e franqueza, pegou tudo o que o garçom tinha anotado, foi ao caixa, apontando para minha mesa. Pagou toda a nossa despesa e saiu, não sem mandar um beijo de longe. Boca aberta, ainda pensei que o carnaval é mesmo uma festa surpreendente.


Fonte: http://conto-gotas.blogspot.com.br/2011/09/amor-de-carnaval.html

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